A soberba precede a queda: De como a família Brandão poderá ir do poder absoluto ao ostracismo político…

Carlos Brandão já soma vinte anos ininterruptos de mandato eletivo. Chegou à Câmara Federal em 2007, renovou o mandato em 2010 e depois virou vice na chapa de Flávio Dino em 2014 e 2018. Assumiu o comando do estado em 2022, quando Dino renunciou para disputar o Senado, e se reelegeu em outubro do mesmo ano. Uma trajetória longa, mas com prazo de validade contado: a partir de janeiro de 2027, o governador fica sem cargo, sem máquina e sem foro.
O destino seria outro se Brandão tivesse cumprido o combinado de 2022. O acordo firmado com Flávio Dino e Felipe Camarão era claro: Brandão renunciaria ao governo em abril de 2026, no prazo exigido pela legislação eleitoral para disputar o Senado, e Camarão assumiria o Palácio dos Leões. O plano de Dino era dar sequência a um projeto de governo que, segundo o próprio, vinha dando certo. Só que Brandão trocou um projeto de estado por um projeto de poder familiar.
No meio desse caminho pesou a influência de seu irmão caçula, Marcus Brandão. Apontado nos bastidores como o governador de fato – ou a eminência parda do governo – Marcus se notabilizou por um perfil ríspido, soberbo, arrogante e dominado por ambições desenfreadas. Ao lado da esposa, Audréia Noleto, que compartilha do mesmo perfil e estilo do marido, veio a ideia maluca de quebrar o acordo com Dino e tentar colocar na principal cadeira dos Leões um neófito na política: Orleans Brandão, filho de Marcus e enteado de Audréia, que tinha como única experiência de vida um cargo de secretário de Estado em Secretaria sem orçamento e um emprego de vinte dias na iniciativa privada.
Mas a conta da ganância foi alta. Se tivesse mantido a palavra, Carlos Brandão seria hoje senador eleito com oito anos de mandato garantidos com todas as regalias e benesses do cargo. Poderia inclusive ter indicado o vice na chapa de Camarão – que seria automaticamente governador daqui a quatro anos, caso Camarão optasse por fazer o mesmo caminho que fez Dino e poderia ter feito Brandão – e ainda mandado três ou quatro familiares para a Assembleia Legislativa e Câmara Federal, alimentando o estilo anacrônico dele de fazer política e gerir a coisa pública só com parentes.
Mas ele preferiu ouvir o ambicioso e destrambelhado irmão, acreditando na tese ingênua de que a força da máquina conseguiria eleger até um poste para o governo em vez de honrar o acordo feito. Só que a política tem regras claras e a principal delas é que traição não costuma ser perdoada. E a fatura do não cumprimento de acordos e as traições fecha agora em janeiro de 2027. Sem o cargo, Brandão volta à condição de cidadão comum, desprovido de foro especial, imunidade e influência política.
E para complicar ainda mais a vida do quase ex-governador, ele terá que responder a pelo menos meia dúzia de processos na Justiça que vão desde formação de quadrilha a outras coisas absurdas que nao podemos colocar aqui. E o detalhe mais amargo da história: a relatoria dessas ações está nas mãos do ex-aliado que ele preferiu trair e provocar o tempo todo, o todo poderoso ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino. Pelo menos, como prêmio de consolação, eles elegeram deputado federal, com a força da máquina, o insosso Vinícius Ferro, genro de Zé Henrique.
Em tempo: ao seguir os conselhos do irmão caçula, Brandão não prejudicou somente a ele, mas também ao sobrinho Daniel Itapary Brandão, conselheiro-presidente do Tribunal de Contas do Estado. Como se sabe, Daniel foi afastado de suas funções e proibido de sequer passar na frente do TCE por decisão proferida pelo ministro Flávio Dino, que Brandão teve a audácia de querer enfrentar. E Daniel poderá não ser o único parente afetado pelas decisões tresloucadas dos tios.
