De como a família Brandão concentra poder e não cumpre acordos políticos…
A concentração de poder dentro da família do governador Carlos Brandão tornou-se uma das principais marcas do governo. Ao mesmo tempo em que os principais espaços permanecem sob influência direta de familiares ou de pessoas de extrema confiança do grupo, a família também acumula episódios de acordos políticos que acabaram não sendo cumpridos.
O resultado é um modelo de poder cada vez mais fechado em torno do núcleo familiar, com pouca disposição para compartilhar espaços estratégicos com aliados. Deixaram de ler Maquiavel.
No centro dessa estrutura está Marcus Brandão, irmão do governador, e sua esposa, Audréia Noleto, apontados como figuras de maior influência dentro do governo. Sob a órbita do casal estão áreas estratégicas como Educação, Saúde, Comunicação e Cultura.
A lógica é simples: quando um cargo não é ocupado diretamente por alguém da família, a preferência recai sobre pessoas que já trabalharam com o grupo e gozam de absoluta confiança. “Alguém da cozinha deles”, como bem disse um vereador da cidade de Colinas aliado da família.
É nesse contexto que aparecem nomes como Liliane Neves, na Saúde, Jandira Dias, na Educação, e ainda Iêda Aragão – adjunta da Cultura, mas que manda mais do que o titular – ambas próximas de Audréia. Na prática, o controle político das secretarias ultrapassaria a relação formal entre governador e secretários, concentrando decisões no núcleo familiar.
Do outro lado da estrutura está José Henrique Brandão, ex-prefeito de Colinas por duas vezes e irmão do meio do governador. A ele são atribuídas fortes influências sobre a SINFRA, a SEPLAN e o Porto do Itaqui.
Na SEPLAN, até abril deste ano, o comando estava nas mãos de Vinícius Ferro, genro de José Henrique, que deixou o cargo para disputar uma vaga de deputado federal. Já o Porto do Itaqui, uma das estruturas mais estratégicas e cobiçadas do Estado, é administrado pela EMAP, atualmente sob o comando de Oquerlina Costa, que vem a ser uma ex-secretária de José Henrique.
A fotografia do governo, portanto, revela uma característica evidente: os espaços mais importantes estão concentrados entre familiares, parentes e pessoas com ligações quase que umbilicais com a família, geralmente um ex-empregado.
A concentração familiar seria apenas uma característica administrativa se não estivesse acompanhada de outro problema: a dificuldade de cumprir acordos políticos.
Nesse sentido, um dos dos primeiros episódios ocorreu exatamente em 2022.
Naquele ano, Flávio Dino, então governador e candidato ao Senado, articulou a união entre Carlos Brandão e Othelino Neto, que presidia a Assembleia Legislativa. O acordo previa o apoio de Othelino à candidatura de Brandão, em troca da continuidade de Othelino na presidência da Assembleia a partir de 2023. Também fazia parte da composição a indicação de Ana Paula Lobato, esposa de Othelino, como primeira suplente de Dino na disputa pelo Senado.
Othelino abandonou a candidatura de Weverton Rocha (aqui ninguém aparta!) e passou a apoiar Brandão. Depois da vitória eleitoral, porém, o compromisso em relação à presidência da Assembleia não foi mantido. Brandão apoiou a candidatura de Iracema Vale, que acabou assumindo a presidência da Casa e entregando o comando direto ao Marcus Brandão, que virou um tal de diretor de Relações Institucionais com poder de mando até sobre a própria presidente.
Outro episódio citado nos bastidores envolve Colinas, cidade de origem da família Brandão. Segundo a articulação política estabelecida entre as famílias Brandão e Barroso, o grupo ligado ao deputado federal Márcio Jerry teria ajudado os Brandão nas eleições municipais de 2016 e 2020. Em contrapartida, os Brandão apoiariam um nome dos Barroso na eleição municipal de 2024.
O compromisso, entretanto, não foi cumprido. Em vez de apoiar um integrante da família Barroso, no caso o vice-prefeito João Haroldo, o grupo Brandão, mesmo já de posse do Estado todo, lançou um nome de sua própria confiança para disputar a Prefeitura, o caso o ex-empregado da família Renato Santos.
O caso mais importante, porém, é o rompimento da composição que envolvia o vice-governador Felipe Camarão. A aliança estabelecida na sucessão de 2022 previa que Carlos Brandão deixaria o governo para disputar o Senado, permitindo que Camarão assumisse o Palácio dos Leões e disputasse a reeleição de 2026 como candidato do grupo, como fez Brandão em 2022.
Em vez de entregar a sucessão ao vice-governador, os Brandão, leia-se Marcus Brandão, preferiram trabalhar pela candidatura de Orleans Brandão, filho de Marcus Brandão, para o governo do Estado. Orleans, então com 30 anos e sem experiência anterior em mandato eletivo, passou a ocupar o centro do projeto político da família.
A escolha sintetiza a lógica que vem sendo apontada pelos adversários do grupo: quando chega a hora de dividir o poder com um aliado, prevalece a opção por alguém da própria família.
Mas o projeto familiar não se limita a Orleans. Mariana Brandão, filha de Marcus Brandão, ocupa atualmente a vice-prefeitura de Paço do Lumiar. Assim, em poucos anos, o sobrenome Brandão passou a ocupar posições estratégicas em diferentes níveis da estrutura política maranhense.
É justamente essa expansão que alimenta a crítica de que o grupo estaria transformando o governo em uma espécie de condomínio familiar, no qual os principais espaços são distribuídos entre parentes e pessoas de confiança.
Dentro desse cenário, Marcus Brandão aparece como uma das figuras centrais. Conhecido nos bastidores por seu temperamento explosivo e por exercer forte influência sobre o irmão governador, Marcus é apontado por adversários como um dos principais responsáveis pela mudança de rota em relação aos antigos acordos políticos.
Foi ele, segundo essa avaliação, quem resistiu à manutenção de Othelino na presidência da Assembleia, e quem teria participado da decisão de não cumprir os acordos com os Barroso, e quem ainda mais pressionou para que o projeto eleitoral da família fosse levado adiante com Orleans Brandão, seu filho, como candidato ao governo.
Ao lado da esposa Audréia Noleto, Marcus passou a representar o núcleo mais influente da família dentro do Palácio dos Leões. O problema para os Brandão é que a mesma estratégia que fortalece o controle interno pode produzir isolamento político externo. Quanto mais espaços são concentrados na família, menor tende a ser o espaço reservado aos aliados. E quanto mais acordos são rompidos, maior é a dificuldade de construir novas alianças.
A questão que começa a se colocar no cenário político maranhense é justamente essa: até onde um grupo consegue avançar mantendo o poder concentrado dentro da própria família e, ao mesmo tempo, dispensando antigos aliados?
Para os críticos do governo, a resposta já estaria sendo dada pela própria trajetória recente dos Brandão: o grupo não apenas concentra poder — teria também dificuldade de dividi-lo quando chega a hora de cumprir os acordos que ajudaram a construí-lo.









