Ninguém escreve ao coronel…

Por Matheus Freitas*
Há livros cujo título atravessa gerações porque traduz, com precisão cirúrgica, certas misérias da condição humana. Ninguém Escreve ao Coronel, do célebre escritor colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Nobel de Literatura, é um deles. No Maranhão, a política parece ensaiar uma adaptação própria dessa história. Desde o dia 5 de outubro, um dia após a derrota de Orleans Brandão para Eduardo Braide, a solidão do poder começa a rondar o Palácio dos Leões. E, com ela, um silêncio que diz muito mais do que qualquer discurso.
Antes, o telefone não descansava. Eram ligações diárias, mensagens a qualquer hora e manifestações de lealdade capazes de emocionar até os mais desconfiados. Prefeitos, deputados, vereadores, ministros de Estado e até o presidente da República faziam questão de aparecer na tela do celular. Havia sempre alguém querendo conversar, pedir, agradecer ou lembrar que estava junto. Era uma movimentação impressionante, quase sufocante. Mas a política, essa senhora sem coração e com memória seletiva, tem seus próprios métodos de reorganizar amizades.
Depois da derrota, o silêncio começou a ocupar os espaços antes preenchidos pela bajulação. As mensagens já não chegam com a mesma frequência. Os telefonemas, antes quase sufocantes, parecem ter entrado em regime de contenção de despesas. Não se sabe se os celulares perderam o sinal ou se certos aliados descobriram, de repente, a função do modo avião. Talvez seja apenas coincidência. Na política, aliás, tudo costuma ser coincidência quando convém explicar o inexplicável. A derrota tem esse efeito pedagógico: ensina a diferença entre amizade e conveniência, lealdade e oportunismo.
A tinta da caneta, tão generosa nos tempos de expectativa eleitoral, parece começar a secar. O poder continua formalmente nas mãos de quem governa, mas já não desperta o mesmo entusiasmo entre aqueles que antes disputavam um lugar à mesa. E é aí que começa o verdadeiro drama: a solidão do poder não precisa de portas trancadas nem de corredores desertos. Basta que as pessoas continuem circulando, mas já não procurem o governante com a mesma urgência. De repente, os corredores parecem mais compridos, as salas ficam maiores e o telefone, mesmo carregado e com sinal perfeito, já não toca como antes.
A tendência é que esse fenômeno se acentue com a aproximação do fim do mandato. Os três últimos meses de um governante costumam ser especialmente ingratos: o relógio passa a trabalhar contra o ocupante do cargo, as promessas perdem o encanto e os aliados começam a fazer contas. Alguns calculam em silêncio; outros, com a discrição de quem nunca esteve realmente comprometido, tratam logo de atualizar o endereço da própria fidelidade. Ninguém abandona o barco, naturalmente. Apenas começa a procurar um bote mais confortável, por precaução. Para Carlos Brandão, o desafio será conviver com uma realidade política diferente daquela em que tantos pareciam tão interessados em sua companhia.
É por isso que o título de García Márquez parece tão adequado a este momento. Ninguém Escreve ao Coronel é também uma metáfora sobre o instante em que alguém percebe que o mundo, antes tão interessado em sua presença, encontrou outras preocupações. No Palácio dos Leões, o celular ainda pode tocar, as portas continuam abertas e a caneta ainda pode assinar documentos. Mas a pergunta começa a pairar no ar: quantos daqueles que cercavam o poder continuarão por perto quando a perspectiva de continuidade deixar de ser o principal atrativo? Afinal, na política, a solidão raramente manda aviso prévio. Primeiro, diminuem as ligações. Depois, escasseiam as visitas. Por fim, até os defensores da amizade eterna descobrem que estão ocupados demais para aparecer. E, quando a tinta começa a secar, há sempre alguém que se apressa em trocar de caneta.
*Jornalista graduado pela Universidade Federal de Pernambuco, pós-graduado em Ciência Política pela Universidade Federal do Maranhão e especialista em Gestão de Comunicação pela PUC/SP.
